quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Colcha de Retalhos



Pedaço por pedaço
Assim ela tentava unir os retalhos de tecidos cortados milimetricamente
Estampas florais, xadrezes e poás de diversas tonalidades
Iam se juntando num balé estonteante
Era como uma operação cirúrgica
Ela ficava horas costurando com apreço
Ia dormir pensando nos quadrados e desenhos formados por eles...era perfeccionista
A colcha, que por semanas tecia, como uma aranha que molda sua teia, enfim ficou pronta
O coração despedaço, esse, não deu para costurar.

Segredo

Queria saber quem era você
Por detrás dessa máscara
Sem esses rígidos disfarces
Com o rosto transparente.

Queria saber o que pensa
Despido dos preconceitos
Liberto dos pensamentos
Neste deserto barulhento.



Queria saber o motivo
Desse rebuscado tormento
Que envolve o sentimento
E oculta o sofrimento.

Queria saber o que muda
Nesse triste testamento
Que gerou descontentamento
Da existência inebriada.

Queria saber se há cura
Para esse medo dilacerante
Que fere a alma cortante
Nesse segredo inconfessável.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ser Humano

Era uma pessoa especial
Um homem no corpo de menino
Exalava bondade
Era gentil com todos que o conheciam
Um ser humano daqueles que não se acha em qualquer lugar
Gostava de ajudar o próximo
Fazia de coração, sem esperar nada em troca
Sentia-se feliz em ver as pessoas felizes
Para ser útil ele dizia: "É apenas uma questão de escolha, nada mais".

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Sonho de VITÓRIA


Dificuldades era palavra conhecida de Vitória. Moça simples da roça, que de dia lidava com a colheita no milharal e à noite ajudava mainha nos afazeres domésticos. Era jovem, mais aparentava mais idade devido a vida de sacrifícios e trabalho quase escravo. Reclamar? Não reclamava não. Sabia que o futuro da família dependia de certa maneira do seu trabalho na lavoura. Já tinha passado por maus bocados na vida. Primeiro, antes de completar um ano de vida quase morreu por falta de leite e de uma anemia que lhe tirou as forças. Depois, aos 7 anos de idade foi a distância da escola que lhe fez desistir de estudar. E agora, já na adolescência a labuta do dia a dia afastava a esperança de ser alguém na vida.

Desde cedo precisou escolher entre aprender ler e escrever ou ajudar no sustento da família. Quando adolescente sua rotina tornou-se ainda mais desgastante. Acordava bem cedinho, antes do galo cantar. Fazia o café, arrumava a trouxa de roupas sujas, que depois da lida na roça, já no final do dia, teria que lavar no rio. Pegava a marmita, colocava a rodia na cabeça, pegava o balde e partia para o trabalho. Não ia sozinha não, seus três irmãos mais velhos a acompanhavam. Eles também passavam o dia na plantação e colheita do milho. Vitória tinha uma outra missão no final do dia. Passar na fazenda vizinha para tirar água do poço para preparar o jantar da família.

Mas, apesar da vida sofrida, ela acalentava o sonho de ir embora do sertão tentar a vida na cidade, queria ser professora. Não queria casar e morar na roça como sua mãe. Sabia bem o destino que lhe daria essa vida, a pobreza. Alegria…teve algumas na vida. A festa de São João na fazenda, para ela era como se fosse um baile. Colocava seu melhor vestido, que mainha fez com tecido bom, que ganhou da mulher de seu Agenor, o administrador da fazenda. Era ciumenta, não deixava ninguém lavar o vestido, fazia questão de tratá-lo com muito cuidado, como uma louça de porcelana.

Outro momento que fazia Vitória sorrir, era quando as comemorações da Festa de Reis chegavam. Somente nesse dia, o pai, seu Joaquim, deixava a moça participar da dança. Falava que moça direita não podia se dar ao desfrute, ficava falada e não arrumava casamento bom. Teve um dia que Vitória conheceu um rapaz, filho de um lavrador da cidade vizinha, moço bonito e trabalhor. Ela até se encantou por ele, mas descobriu que era tão pobre, tão pobre, que dormia de favor na cocheira da fazenda onde trabalhava e acabou desistindo.

Faltando pouco meses para Vitória completar 18 anos, falou com seus pais que pretendia ir para a cidade em busca de uma vida melhor. Contrariados, seu Joaquim e dona Ana não gostaram da novidade. Mas acabaram se convencendo, que alí a menina não teria futuro. Chegou o grande dia, Vitória arrumou a trouxa e depois de três dias de viagem, ela e seu irmão Cícero chegaram a Pernambuco. Desembarcaram na rodoviária, perdidos, sem ter para onde ir, e com pouco dinheiro.

Na cidade grande a vida foi difícil, passaram por diversos perrengues, fome, frio, falta de emprego. Vitória não desistiu, voltou a estudar, completou o ensino fundamental e depois fez o ensino médio. Seu irmão foi trabalhar como ajudante de pedreiro e logo tornou-se mestre-de-obras. A vida começou a melhorar. Eles não se esqueceram do sacrifício da família, todo mês mandavam dinheiro aos pais e aos irmãos que ficaram na roça, cuidando do pedacinho de chão da família.

Vitória trabalhava como garçonete em um bar. Certo dia resolveu prestar o vestibular para pedagogia em uma faculdade pública e passou. Depois de quatro anos estudando e trabalhando, enfim se formou. Fez questão de voltar para a roça para visitar seus pais e mostrar que o sacrifício deles não foi em vão. Ela agora era professora formada e devia a realização do seu sonho aos seus pais. Essa é a história de Vitória, que se confunde com a de muitos brasileiros e brasileiras que deixam o campo para tentar a vida na cidade grande. Muitos encontram a vitória, outros, acabam voltando à terra natal. O importante é não desistir do sonho nunca. Vitória sabe bem disso!

Sem gravidade

Ando com a cabeça na lua
Desguarnecida de oxigênio
Plainando feito pluma ao vento
Que não consegue tocar o chão.

Pareço até que não sou desse planeta
Que vivo em Marte
Com o corpo gravitando
No alto e baixo das crateras do meu pensamento.

Me falta oxigênio
Para retornar da órbita
E fincar os pés na terra
Feito árvore que aconchega suas raízes
No solo adubado e fértil.

Tenho a sensação que não saio do lugar
Se tento correr, os passos ficam lentos
Se tento andar, fico parada, estática
Se fico parada, desatino a subir
Será que o mundo parou e eu não percebi?

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Regresso

Ouça...eu não penso em desilusão
Só não quero encontrar a porta fechada
Os sentimentos destruídos
O coração trancado.

Ouça...eu pedi para você não me esquecer
Não apagar as lembranças
Não extinguir os sentimentos
Não fechar os olhos completamente.

Ouça... eu falei que voltava
Para inebriar-te com meus desejos
Ocultar as horas e minutos roubados pelo tempo
Curar as cicatrizes
Dissipar a saudade que roia por dentro.

Ouça...agora vou ficar
Repor o tempo perdido
Desarrumar os teus sentidos
Libertá-lo da solidão.